WASHINGTON – O Brasil está no grupo dos mercados emergentes mais vulneráveis, devendo ser um dos países mais afetados se prevalecer um quadro adverso na economia global, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em relatório divulgado nesta terça-feira, o FMI estima que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro pode cair em 2015 mais do que 3,75% em relação ao cenário básico esperado pela instituição, numa hipótese que combina alta mais forte dos juros de longo prazo nos países desenvolvidos, desaceleração mais acentuada nos emergentes e turbulência financeira que eleva as taxas mais longas nos países em desenvolvimento.
O organismo classifica o Brasil como um dos emergentes mais vulneráveis ao lado de Argentina, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia, economias caracterizadas por “inflação mais alta, déficts externos ou fiscais mais elevados e outros desequilíbrios-chave”. Na semana passada, o Fundo reduziu a previsão de expansão do PIB brasileiro de 1,8% para 1,3% para 2014 e de 2,7% para 2% em 2015.
No estudo, o FMI constrói um cenário negativo para a economia global com três premissas. A primeira é um aumento mais forte dos juros de longo prazo nos Estados Unidos e no Reino Unido, de 1 ponto percentual, causado em grande parte por preocupações quanto à estabilidade financeira, que poderia ser liderado pelo mercado ou por uma ação dos próprios bancos centrais.
A segunda hipótese é uma desaceleração estrutural mais forte dos mercados emergentes. O crescimento ficaria 0,5 ponto percentual abaixo do esperado para esses países nos próximos três anos. “Para os países mais vulneráveis nesse grupo (por exemplo, aqueles com alta inflação e grandes déficits em conta corrente), o espaço limitado para políticas impede relaxamento monetário no primeiro ano”, diz o FMI.
O terceiro fator seria uma turbulência financeira mais profunda, à medida que haveria uma decepção quanto à expansão dos emergentes. Isso causaria um aumento adicional de 0,5 ponto percentual dos juros de longo prazo dos países emergentes mais vulneráveis, com queda de preços de ações devido ao aumento do custo de capital e ao crescimento mais fraco.
Nesse ambiente, o PIB brasileiro cairia em 2015 mais do que 3,75% em relação ao esperado no cenário básico. Argentina, Turquia, Índia e Indonésia teriam quedas de mesma magnitude. Ao mesmo tempo, esse cenário adverso ajudaria a corrigir alguns desequilíbrios do Brasil. A inflação ao consumidor no ano que vem tenderia a recuar mais do que 1,875 ponto percentual, enquanto o déficit em conta corrente tenderia a melhorar entre 0,5 e 1,5 ponto percentual do PIB.
Para enfrentar esses riscos, o FMI recomenda aos países emergentes mais vulneráveis – o grupo do qual faz parte o Brasil – o fortalecimento do arranjo de políticas e dos fundamentos. Para o Fundo, “isso é desejável de uma perspectiva doméstica e pode mitigar impactos externos adversos, embora a reconstrução de amortecedores vá levar tempo”. Posições fiscais mais forte ajudam a reduzir os efeitos de choques externos, em alguns casos ao reduzir os déficits em conta corrente.
O FMI também afirma que muitos países devem permitir que a taxa de câmbio funcione como um amortecedor contra choques externos. “Onde as reservas forem adequadas, intervenções podem ser usadas para evitar volatilidade excessiva no câmbio e prevenir perturbações financeiras”, diz o relatório, observando que ferramentas macroprudenciais e medidas de controle de capitais podem ajudar a estabilizar, embora não possam substituir um ajuste na política macroeconômica.
Como de costume, o Fundo sugere que os países emergentes em geral adotem reformas estruturais para levantar restrições ao crescimento potencial de médio prazo. O Brasil aparece como um país em que é necessário enfrentar necessidades de infraestrutura, especialmente em eletricidade e transporte, ao lado de Índia, Indonésia e Rússia. O FMI também diz que é importante o Brasil melhorar a competição e o clima de negócios, uma recomendação também feita à China, Rússia e África do Sul.
A avaliação faz parte do chamado Spillover Report, que analisa os efeitos que políticas e acontecimentos num país produzem sobre outros (os “spillovers”). Também trata das possíveis consequências dessas ações sobre as próprias economias que causaram impactos sobre o resto do mundo (o que o FMI passou a chamar de “spillbacks”).
O foco do relatório é analisar as implicações de duas principais tendências. A primeira é a perspectivas de normalização da política monetária nos países desenvolvidos, à medida que alguns bancos centrais, como o Federal Reserve (Fed, banco central americano), começam a retirar alguns dos estímulos, devido à recuperação da economia. O FMI destaca que essa normalização não será sincronizada, uma vez que a retomada é mais forte nos EUA e no Reino Unido, e mais fraca na zona do euro e no Japão. Com os juros próximos de zero e grandes balanços dos bancos centrais, esses BCs enfrentam desafios complexos para promover uma normalização suave da política monetária, diz o Fundo.
O outro foco está no fato de que os mercados emergentes estão se desacelerando de modo sincronizado e prolongado, segundo o organismo. O crescimento médio desses países, que ficou em 7% entre 2003 e 2008, deve ficar em 5% nos próximos cinco anos. Essa expansão mais modesta tem efeitos consideráveis para o resto do mundo por meio dos canais comercial e financeiro, afetando também outros emergentes, diz o FMI.
O estudo também traz uma simulação dos efeitos de preços de commodities mais baixos sobre a balança comercial dos países. A simulação considera um recuo de 9% nas commodities de energia, 9% nas metálicas e 4% nas alimentícia s, o que seria consistente com um crescimento 1% menor nos mercados emergentes. O saldo comercial brasileiro teria um recuo de 0 a 1 ponto percentual, segundo as estimativas do FMI, inferior ao de países como o Chile, por exemplo, onde a queda tenderia a ficar entre 1 e 4 pontos percentuais.
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