
ATUALIZAÇÃO: Após a publicação desta reportagem, a assessoria do governador Agnelo Queiroz informou que Cícero Candido Sobrinho foi exonerado do cargo.
Na tarde do dia 28 de agosto, uma quinta-feira, um Siena vermelho e um Uno branco estacionaram, um atrás do outro, no acostamento da BR-040, num trecho movimentado e próximo a Brasília. Os carros não tinham problemas mecânicos. No Siena vermelho, estavam Ailton Pereira, dono da Agropecuária São Gabriel, e Eduardo Alves, um de seus gerentes. O Uno branco era dirigido por Cícero Cândido Sobrinho, motorista da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal.
Ciço, como é conhecido, não é um motorista qualquer. Quando o atual governador de Brasília, Agnelo Queiroz (PT), comandou o Ministério do Esporte, entre 2003 e 2006, Ciço foi seu assessor. É filiado ao PC do B (ex-partido de Agnelo) desde 1997. A desconhecida Agropecuária São Gabriel também não é uma empresa qualquer. Aluga galpões para o governo de Agnelo.
A cena, registrada num vídeo obtido com exclusividade por ÉPOCA (assista ao lado), dura menos de dois minutos. O motorista Ciço liga o pisca-alerta, sai do Uno e anda em direção ao Siena. O gerente Eduardo Alves faz o caminho inverso. Trocam cumprimentos. O motorista encosta na janela do Siena e conversa com o dono da empresa. Enquanto isso, o gerente Eduardo joga um pacote de notas de cem reais no banco da frente do Uno – R$ 9,5 mil, segundo ele disse posteriormente ao Ministério Público. Tudo acontece rapidamente. Todos voltam aos seus carros, o motorista parece conferir os valores e, em seguida, eles seguem seus caminhos. O Uno dirigido por Ciço é alugado pelo governo de Brasília.
O vídeo expõe um caso clássico de corrupção: uma empresa privada paga uma taxa – propina – para fazer negócio com o governo. Nesse caso, há um elemento adicional: há evidências de que a propina foi encaminhada à campanha eleitoral do PT em Brasília. À propina, some-se a suspeita de caixa 2 nas campanhas de Agnelo Queiroz, candidato à reeleição ao governo de Brasília, e de Rafael Barbosa (PT), secretário de Saúde até recentemente. Ele deixou o cargo para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados.

O Ministério Público do Distrito Federal investiga o caso. Os promotores descobriram que a cena registrada em vídeo não foi um episódio isolado. O gerente Eduardo Alves, segundo ele próprio admitiu ao MP quando foi convocado a dar explicações, entrega propina ao motorista do governo desde 2012. Foi nesse ano que a Agropecuária São Gabriel passou a receber do governo por alugar galpões à Secretaria de Saúde. Os galpões servem para acomodar bens sem utilidade, como computadores e móveis velhos. Assim que a Secretaria depositava os recursos na conta da São Gabriel, o dono da empresa, Ailton Pereira, preenchia o cheque no valor da propina e mandava Eduardo Alves descontá-lo na agência 216 do BRB (Banco de Brasília). A agência e os galpões alugados pela secretaria sem licitação ficam no Gama, cidade a 40 quilômetros do centro de Brasília.
Ato contínuo, Eduardo Alves ligava para o motorista, a fim de marcar o local da entrega do dinheiro em espécie – geralmente na porta do banco e em outros locais públicos. De acordo com a investigação do MP, a propina equivalia a 30% do valor dos depósitos. Desde 2012, a Agropecuária São Gabriel recebeu mais de R$ 1milhão do governo do Distrito Federal pelo aluguel de dois galpões. Por isso, os promotores que acompanham o caso trabalham com a hipótese de que quase R$ 300 mil em espécie tenham sido repassados pela Agropecuária São Gabriel aos mandantes do esquema.
Em depoimento ao Ministério Público no final da tarde do dia 29 de setembro, o gerente Eduardo confirmou todas as suspeitas dos promotores que investigam o caso. Afirmou, ainda, que o motorista Cícero dizia que o dinheiro não era para ele; e, sim, para as campanhas de Agnelo Queiroz e Rafael Barbosa.
O dono da Agropecuária São Gabriel, Ailton Pereira, comentava com pessoas próximas que estava cansado de pagar propina a Cícero. “Não aguento mais pagar essa m…os caras sempre me pedem dinheiro”, disse a um grupo de funcionários recentemente.
Apesar das queixas, Ailton costuma se gabar. Diz conhecer Agnelo Queiroz há muitos anos. Agnelo, de acordo com Ailton, foi médico de um de seus irmãos, nos tempos em que o governador trabalhava como médico no Hospital do Gama. Ailton também tem o hábito de comentar que ajudou Agnelo Queiroz na campanha eleitoral de 2010, quando o petista fora eleito governador do DF. Na prestação de contas da campanha de 2010 de Agnelo, no entanto, não aparecem contribuições de empresas ligadas a Ailton.
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Confira o vídeo e o restante da reportagem em:

