União dos Auditores do Tribunal de Contas da União

Abreu e Lima é fruto de ‘Contratação Integrada’

No centro do escândalo da Petrobrás, a construção da Refinaria Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, foi licitada por meio da “contratação integrada”, modalidade de concorrência que permite aquisição de obras e serviços públicos de engenharia com base apenas em anteprojetos. O procedimento teve impacto enorme no aumento de custos da refinaria.

A falta de detalhamento do projeto inicial da refinaria provocou uma avalanche de problemas”, afirma relatório do Secretário de Fiscalização de Obras de Energia e Saneamento do Tribunal de Contas da União(TCU), Eduardo Nery, a propósito de auditoria de 2013, na sequência de outras realizadas a partir de 2010 por solicitação da Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização do Congresso Nacional.

Na “avalanche de problemas” estão indícios de projeto deficiente, falha na estimativa de quantidade de materiais para a obra e atrasos no cronograma, que deram origem a diversos aditivos. A ‘contratação integrada’ permite a contratação de obras e serviços públicos de engenharia com base apenas em anteprojeto, ficando por conta das empreiteiras a elaboração dos projetos básico e executivo, a execução das obras e os testes do que elas próprias ergueram. É o chamado “design and build”.

As estimativas de custos não representavam a realidade da obra, porque a Petrobras não contrata seus empreendimentos adotando as determinações da Lei de Licitações, que prevê o detalhamento no projeto executivo. A empresa usa o modelo de Contratação Integrada, com risco maior para o contratado“, afirma o relatório de Eduardo Nery, que levou a CPMI da Petrobrás a requisitar da estatal a integra de todas as auditorias feitas pelo TCU sobre a refinaria.

Os fatos ganham relevância maior em decorrência da tramitação no Senado, neste momento, de projeto que propõe a adoção da “contratação integrada” para todas as obras do país. O projeto tem a oposição das entidades de arquitetura e engenharia, que entendem ser contra o interesse da sociedade que uma única empresa se responsabilize pelos projetos e obras dos empreendimentos públicos. As entidades defendem um maior tempo para uma ampla discussão, com a profundidade exigida e com a transparência que merece. A recomendação é que o debate e votação ocorra com o novo Congresso, legitimado pelos votos das eleições de 5 de outubro.

Fazem parte do grupo de entidades o CAU/BR (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil), o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), a FNA (Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas), a AsBEA (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura), a ABAP (Associação Brasileira de Arquitetura Paisagística) e o SINAENCO (Sindicato da Arquitetura e Engenharia Consultivas), entre outras.

SUPERFATURAMENTO – Os problemas na refinaria começaram logo na obra de terraplenagem, onde o TCU comprovou um superfaturamento de R$ 69,6 milhões. O resultado do relatório do Tribunal aponta que o valor original do contrato, assinado com o consórcio vencedor, saltou de R$ 429,2 milhões para R$ 534,2 milhões entre 2007 e 2011. O órgão de fiscalização exigiu que a Petrobras cobrasse a devolução dos quase R$ 70 milhões. Do total, a Petrobras recebeu R$ 49,8 milhões, o resto está pendente de recurso.

Também foi ressaltado pela auditoria do TCU, o montante de aditivos de quatro contratos, no valor total de R$ 836 milhões. ‘Ao que tudo indica, os projetos básicos dessas unidades foram deficientes, contendo grandes indefinições de dados de solos e das fundações. Não que o projeto básico tenha que ser preciso, mas aumento de quase 200% da demanda de estrutura metálica para as unidades, por exemplo, é algo que chama a atenção’, diz o relatório do TCU.

A previsão da Petrobras é que as obras sejam concluídas até 2015, com cinco anos de atraso. A Refinaria de Abreu e Lima teve orçamento inicial de US$ 2,5 bilhões. A previsão é que ela seja concluída com investimento de US$18,5 bilhões, segundo a própria estatal.

REVISÃO DA LEI DE LICITAÇÕES – A modalidade de “contratação integrada” foi introduzida na legislação licitatória do Brasil justamente pela Petrobrás em seu Regulamento de Procedimento Licitatório Simplificado.

A partir de 2011 a “contratação integrada” passou a ser utilizada também nas obras da Copa e das Olimpíadas, através de lei que criou o RDC (Regime Diferenciado de Contratações Públicas). Depois, o procedimento foi estendido para outros grandes empreendimentos (PAC, SUS, presídios, obras rodoviárias pelo DNIT etc). O PLS 559/2013, atualmente em tramitação no Senado, propõe a generalização do uso da “contratação integrada” para todas as obras públicas.

No formato proposto pelo projeto, a empreiteira poderá ficar também com a operação do empreendimento, quando cabível, por até cinco anos. O projeto seria votado no início de agosto, mas a oposição das entidades de arquitetura e engenharia, com ampla repercussão na mídia, levou o governo a solicitar informalmente ao Senado um tempo para reanalisar o assunto, o que está sendo feito na Casa Civil. O PLS 559/2013, uma revisão da atual Lei de Licitações (8.666/93), de qualquer forma, continua na pauta do Senado.

As vantagens da modalidade, segundo seus defensores, é a agilização dos processos de contratação e execução da obra, além da inviabilidade de aditivos, o que não se mostrou real no caso da Refinaria Abreu e Lima.

As entidades de arquitetura e engenharia, contudo, julgam a “contratação integrada” prejudicial à ética nos negócios públicos. “A modalidade de “contratação Integrada” para obras públicas é o melhor caminho para o aumento dos custos, para a diminuição da qualidade e para a consagração da corrupção nos contratos públicos”. Isso, alegam, é gerado pela “promiscuidade entre projeto e obra”, deixando tudo nas mãos das construtoras. O ideal seria o poder público elaborar não só o anteprojeto, mas também os projetos básicos e executivos antes de licitar as obras. É o que diz o documento do CAU “As Obras Públicas e o Direito à Cidade” de fevereiro último.

A nova Lei de Licitações norteia as compras públicas de qualquer espécie, de papel higiênico até uma grande refinaria como a Abreu e Lima, e orienta os executivos de mais de seis mil entes públicos no Brasil (5.573 Municípios, 27 Estados, União e Empresas Públicas).


Leia mais em:

http://www.caubr.gov.br/?p=32635


Confira o posicionamento expresso pelos Auditores do TCU na Carta de Brasília:


12) Declarar que os Auditores Federais de Controle Externo estão em estado de alerta e em luta para barrar proposições contidas no PLS 559/2013 que virão a cercear nossa atividade profissional, além de pretender intimidar os colegiados dos Tribunais de Contas e o corpo técnico de Auditores. Conclamamos a população brasileira a unir-se para defender o livre exercício da fiscalização sobre as contas públicas e barrar qualquer tentativa de aprovar leis em favor de corruptos e corruptores“.


Saiba mais:

https://auditar.org.br/web/?h_pg=noticias&bin=read&id=1670