União dos Auditores do Tribunal de Contas da União

Yousseff: Doação para Propina

Antes de qualquer coisa, fique registrado que a presidente Dilma Rousseff dá como verdade o que Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, vem revelando à Justiça em seu processo de delação premiada. Também estejamos todos de acordo que a presidente Também estejamos todos de acordo que a presidente aceita como verdadeiras as notícias publicadas pela imprensa sobre o escândalo do petrolão.

Foi com base no que leu sobre um depoimento de Paulo Roberto Costa no UOL, o site noticioso da Folha de S.Paulo, que ela fez a seguinte afirmação dian­te de milhões de brasileiros que assis­tiam pelo SBT ao seu debate com Aécio Neves na semana passada:

Candidato, há pouco saiu no UOL o seguinte: que o ex-diretor da Petrobras afirmou ao Ministério Público Federal que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra recebeu propina para esvaziar uma CPI da Petrobras… Por isso é que eu digo, candidato, quando a gente verifica que o PSDB recebeu propina… O que im­porta, candidato? Importa investigar”.

Agora, leiamos o que Aécio Neves afirmou no mesmo debate sobre o mes­mo escândalo com base nas mesmas fontes que Dilma Rousseff usou:

“Por que o seu partido impediu que o senhor Vaccari (João Vaccari Neto, tesou­reiro do PT) fosse à CPI depor? Ele é res­ponsável por transferir recursos para a sua campanha… pelo menos 4 milhões de reais foram transferidos, com a assinatu­ra do senhor Vaccari,… para sua conta de campanha. Vamos investigar logo”.

Dilma não respondeu. Isso nos deixa com duas opções. A primeira: Dilma acredita em Paulo Roberto Costa apenas quando ele acusa gente do PSDB. Como isso seria aceitável para a candidata, mas indigno para a presidente, fiquemos com a segunda opção, a única que faz jus ao posto de magistrada maior da nação, que Dilma ocupa. Essa opção nos permite concluir que Dilma também á como ver­dadeira a afirmação de que Vaccari rece­beu dinheiro do escândalo do petrolão (os famosos “2% iam para o PT”, da delação premiada de Paulo Roberto Costa) e transferiu parte para sua campanha.


Sem incorrer em perjúrio nem difamação, Aécio Neves poderia ter descrito assim a situação de Dilma: “Por isso é que eu di­go, candidata, quando a gente verifica que sua campanha recebeu propina…

A lógica de tudo isso mostra que ocorreu um evento raro durante o deba­te presidencial do SBT: dois candidatos que concordam sobre uma mesma ques­tão. Dilma e Aécio, como se vê, estão de acordo em que Paulo Roberto Costa fala a verdade e que suas denúncias precisam ser investigadas. Fique, então, registrado que tanto Aécio (“Vamos investigar lo­go”) quanto Dilma (“Importa investi­gar”), se eleitos, irão fundo na investiga­ção das propinas do petrolão para par­lamentares e campanhas presidenciais. A sociedade brasileira vai cobrar do eleito essa promessa.

Parafraseando Dilma Rousseff, “quan­do a gente verifica” que a Petrobras esteve durante quase todo o governo dela e de Lula sob o controle de uma quadrilha de corruptos, “importa investigar”. É isso que as autoridades estão fazendo.


Na semana passada, foi a vez de o doleiro Alberto Youssef, outro envolvido no caso, dar se­quência à serie de revelações surpreen­dentes iniciadas por Paulo Roberto Costa, as quais, lembremo-nos, Dilma agora uti­liza como sendo verdadeiras em suas apa­rições em debates eleitorais. Quando assi­nou seu acordo de delação premiada, Youssef prometeu entregar aos investiga­dores informações que iriam “chocar o país”. Na semana passada, ele fez o que prometeu. Youssef disse às autoridades que a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010 foi financiada em parte com dinheiro desviado da Petrobras.

Parceiro do ex-diretor de Abasteci­mento da Petrobras Paulo Roberto Costa na gestão da bilionária máquina de corrupção qué sangrava os cofres da es­tatal e abastecia os bolsos de políticos influentes da República, o doleiro dedi­cou-se nas últimas duas semanas a de­monstrar aos delegados e procuradores que não estava blefando quando falou do poder de suas revelações.


Imerso desde o dia 2 deste mês em sessões diárias de até oito horas de interrogatório, Youssef já listou o nome de 28 parlamentares que se serviam das propinas pagas pelas emprei­teiras com contratos na estatal e expôs as entranhas do que chamou de “mensalão dois”. Além de confirmar informações já prestadas por Paulo Roberto, o doleiro revelou aos investigadores que testemu­nhou o funcionamento de um requintado esquema para repassar dinheiro fruto de corrupção a campanhas eleitorais dando às operações uma fachada de legalidade. O que ocorria, segundo Youssef, era para ter sido o que o submundo chama de “cri­me perfeito”. As empresas faziam doações legais, registradas na Justiça Eleitoral, mas o dinheiro vinha de contratos com a Petrobras artificialmente inflados por aditivos e sobrepreços.

Youssef contou aos investigadores que esse método — um entre vários ou­tros — foi utilizado para engordar as fi­nanças de campanha de dezenas de de­putados federais da base aliada do gover­no e que uma porção do dinheiro foi di­recionada para a campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2010. Naquele ano, sua campanha arrecadou um total de 148,8 milhões de reais, recursos devi­damente contabilizados na Justiça Elei­toral. Entre os maiores doadores da cam­panha de Dilma estão as empresas que, segundo o depoimento em delação pre­miada de Youssef, formavam o cartel de obras e serviços na Petrobras. Outras tantas são subsidiárias das empresas que, de acordo com o doleiro, se cartelizaram na boca do caixa da estatal. Quase todas as demais são prestadoras de serviços, fornecedoras ou beneficiárias de crédito barato do governo federal.

Uma consulta aos arquivos do TSE revela que nove das treze empresas ci­tadas por Youssef fizeram doações le­gais à campanha de Dilma Rousseff em 2010. Somadas às doações das empresas citadas pelo doleiro, elas chegam a 29 milhões de reais. Pelo valor dos contra­tos mantidos com a Petrobras, por seu lucro naquele ano e pela dimensão de suas operações globais, parece irreal que organizações daquela envergadura precisassem recorrer a um diretor de estatal corrupto e um doleiro para fazer doações legais à campanha de Dilma em 2010. Mas esse é um problema que Dilma terá de resolver primeiro entre ela e seus arrecadadores quando a denúncia feita por Youssef chegar à fase das provas.


Os investigadores do caso já descobriram que a quadrilha instalada na Petrobras sabia como se premiar muito bem com o dinheiro desviado. O próprio Paulo Roberto Costa aceitou repatriar 23 milhões de dólares que ele tem depositados na Suíça e foram fruto de ações criminosas.

Haverá dano para a imagem de Dilma, pois não bastará desmentir Youssef ou tentar desqualificá-lo como um criminoso desesperado que diz qualquer coisa para se salvar. Quanto aos valores de pouca monta comparados ao tamanho das empresas doadoras que, segundo Youssef, faziam parte do esquema, o dolo não está no centavo ou no milhão, mas na natureza do esquema. A quadrilha abasteceu dezenas de campanhas, pelo que se revelou até agora. Em 2010, o custo total das campanhas de presidente,governador, senador e deputado federal chegou a 4,9 bilhões de reais.

O doleiro Youssef disse que o esquema de arrecadação clandestino começou a funcionar em 2006, um ano depois de o mensalão ter sido debelado, e que a indicação do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras foi negociada com o então presidente Lula diretamente pelo ex-deputado José Janene (PP), também envolvido no mensalão e já morto.


A imensa riqueza de detalhes, documentos e planilhas entregues por Youssef às autoridades só agora passa a fazer sentido, montada como um quebra-cabeça em que o doleiro tem as peças e Paulo Roberto conhece a imagem a ser formada. Youssef entregou às autoridades uma lista de 28 deputados financiados pela quadrilha. Dependendo da importância do parlamentar, os pagamentos variavam de 100.000 reais a 150.000 reais por mês. Como disse Dilma,“quando a gente verifica o pagamento de propina”, é preciso investigar. É justamente o que está sendo feito. 

Vaccari é o PC Farias do governo do PT

Delator do mensalão, escândalo que levou a cúpula petista para a cadeia, o corretor Lúcio Bolonha Funaro conheceu de perto a engrenagem de corrupção montada pelo Partido dos Trabalhadores para viabilizar o ambicioso projeto de poder da legenda. Em 2004, Funaro emprestou 4 milhões de reais ao PL (atual PR), aliado do governo. Para receber o dinheiro de volta, ele foi apresentado às figuras centrais do esquema. Em 2006, o corretor fez um acordo com a Justiça para revelar o que sabia sobre a compra de votos no Congresso – e hoje diz que as semelhanças entre o mensalão e o que se descobriu agora na Petrobras, que inclusive envolve os mesmos personagens, não são apenas uma coincidência. Para ele, ambos são esquemas planejados pela mesma organização, têm os mesmos objetivos e um elo em comum: o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Quais são as semelhanças entre o mensalão e o caso Petrobras?

O Paulo Roberto Costa confirmou que sua nomeação foi política, feita pelo ex-deputado José Janene, envolvido no mensalão. O operador financeiro do esquema tem entre seus funcioná­rios o dono da corretora Bônus Banval, também envolvido no mensalão. A pessoa encarregada de ser a respon­sável na partilha pelo lado do PT, João Vaccari, é a mesma que me foi apre­sentada para tentar resolver o débito que o PL tinha comigo. São vários pontos em comum. Impossível ser mera coincidência.

Por que o senhor acha que eles fazem parte de uma mesma orga­nização?

O modus operandi é sem­pre o mesmo. Há uma empresa-mãe que superfatura serviços contra uma estatal e depois repassa para todos os envolvidos no esquema. No men­salão foram as empresas do Marcos Valério, e agora no caso da Petrobras são as empreiteiras e as prestadoras de serviços da Petrobras.

O senhor negociou diretamente com o tesoureiro João Vaccari?

O Vaccari é o PC Farias (tesoureiro do então presidente Collor) do governo do PT. O Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT preso por corrupção) me apresentou o Vaccari como o homem que resolveria o problema da dívida. E sabe o que o Vacca­ri sugeriu? Sugeriu que eu criasse um fun­do para captar dinheiro da Funcef ou da Petros. Em outras palavras, os fundos de pensão dos servidores da Caixa e da Petro­bras pagariam a dívida do partido. Não aceitei. Agora, o Vaccari aparece de novo envolvido com o Alberto Youssef e desvios de fundos de pensão. É isso que ele faz.

O Vaccari se apresentava como repre­sentante do PT?

Ele tinha sinal verde para operar em certas áreas e aumentou sua influência conforme foi se reduzindo o qua­dro de operadores do partido. Antes, você tinha o Delúbio, o Marcelo Sereno… Os fatos estão aí para provar que o Vaccari era a pessoa indicada pelo PT para viabilizar ne­gócios com os fundos de pensão. Ele tinha influência na Funcef, na Previ e na Petros. Desde o início do governo do PT, os negócios envolvendo fundos eram tratados com ele.


O senhor também diz que o esquema de desvios da Petrobras começou bem an­tes do que se imagina.

O que quero dizer é que, em 2002, o banco Schahin fez um empréstimo a José Carlos Bumlai (pecua­rista, amigo do ex-presidente Lula) para a campanha do PT. Depois da eleição de Lu­la, o grupo Schahin multiplicou seus contra­tos dentro da Petrobras. Afirmo que o grupo Schahin não tem estrutura para ter tama­nho volume de contratos. Coisa de 15 bi­lhões de dólares. Tenho um litígio com eles e sei o que estou falando, assim como afir­mo que o grupo apresenta uma fragilidade financeira que põe em risco a Petrobras.


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